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Joaçaba,   


CRÔNICAS ESSENCIAIS

Dr. Adgar Bittencourt , membro da ACO
 

      adgar.bittencourt@unoesc.edu.br


Eles estão chegando

 

Em 1994 estive nos Estados Unidos liderando um grupo de empresários em
visita à costa leste, várias cidades, inclusive Nova Iorque. Duas coisas me impressionaram muito: o "Word Trade Center" onde estive por três vezes e um americano jovem de dezoito anos cadete de "West Point", onde estive num dia de neve a menos nove graus, que quando perguntado o que os americanos deveriam fazer se ficassem sem petróleo. "

Devemos invadir e tomar. Nós somos os melhores". - E se vocês ficarem sem reservas florestais?- perguntei com má intenção. A resposta veio na bucha: "vamos tomar a floresta amazônica ( rain Forest)!"

Leiam com muita atenção a matéria que segue: ela foi escrita com a isenção de um cientista que não precisa mentir. Tirem suas conclusões e, se puderem, espalhem a boa nova pelo mundo: estamos prestes a ser a bola da vez!

Segue abaixo o relato de uma pessoa conhecida e séria, que passou recentemente em um concurso público federal e foi trabalhar em Roraima. Trata- se de um Brasil que a gente não conhece.

"As duas semanas em Manaus foram interessantes para conhecer um Brasil um pouco diferente, mas chegando em Boa Vista (RR) não pude resistir a fazer um relato das coisas que tenho visto e escutado por aqui.Conversei com algumas pessoas nesses três dias, desde engenheiros até pessoas com um mínimo de instrução. Para começar, o mais difícil de encontrar por aqui é roraimense. Pra falar a verdade, acho que a proporção de um roraimense para cada 10 pessoas é bem razoável, tem gaúcho, carioca, cearense, amazonense, piauiense, maranhense e por aí vai. Portanto, falta uma identidade com a terra.

Aqui não existem muitos meios de sobrevivência, ou a pessoa é funcionária pública, (e aqui quase todo mundo é, pois em Boa Vista se concentram todos os órgãos federais e estaduais de Roraima, além da prefeitura é claro) ou a pessoa trabalha no comércio local ou recebe ajuda de Programas do governo.

Não existe indústria de qualquer tipo. Pouco mais de 70% do território roraimense é demarcado como reserva indígena, portanto restam apenas 30%,descontando- se  os rios e as terras improdutivas que são muitas, para secultivar a terra ou para a localização das próprias cidades.

Na única rodovia que existe em direção ao Brasil (liga Boa Vista a Manaus, cerca de 800 km) existe um trecho de aproximadamente 200 km reserva indígena(Waimiri Atroari) por onde você só passa entre 6:00 da manhã e 6:00 da tarde, nas outras 12 horas a rodovia é fechada pelos índios (com autorização da FUNAI e dos americanos) para que os mesmos não sejam incomodados.

Detalhe: Você não passa se for brasileiro, o acesso é livre aos americanos, europeus e japoneses. Desses 70% de território indígena, diria que em 90% dele ninguém  entra sem uma grande burocracia e autorização da FUNAI. Outro detalhe: americanos entram à hora que quiserem. Se você não tem uma autorização da FUNAI mas tem dos americanos então você pode entrar. A maioria dos índios fala a língua nativa além do inglês ou francês mas a maioria não sabe falar português. Dizem que é comum na entrada de algumas reservas encontrarem-se hasteadas bandeiras americanas ou inglesas. É comum se encontrar por aqui americano tipo nerd com cara de quem não quer nada, que  veio caçar borboleta e joaninha e catalogá-las, mas no final das contas, pasme, se você quiser montar uma empresa para exportar plantas e frutas típicas como cupuaçu, açaí, camu-camu, etc., medicinais ou componentes naturais para fabricação de remédios, pode se preparar para pagar 'royalties' para empresas japonesas e americanas que já patentearam a maioria dos produtos típicos da Amazônia...

Por três vezes repeti a seguinte frase após ouvir tais relatos: Os  americanos vão acabar tomando a Amazônia. E em todas elas ouvi a mesma resposta em palavras diferentes. Vou reproduzir a resposta de uma senhora simples que vendia suco e água na rodovia próximo de Mucajaí: 'Irão não minha filha, tu não sabe, mas tudo aqui já é deles, eles comandam tudo, você não entra em lugar nenhum porque eles não deixam. Quando acabar essa guerra aí eles virão pra cá, e vão fazer o que fizeram no Iraque quando determinaram uma faixa para os curdos onde iraquiano não entra, aqui vai ser a mesma coisa'. A dona é bem informada não? O pior é que segundo a ONU o conceito de nação é um conceito de soberania e as áreas demarcadas têm o nome de nação indígena. O que pode levar os americanos a alegarem que estarão libertando os povos indígenas. Fiquei sabendo que os americanos já estão construindo uma grande base militar na  Colômbia, bem próximo da fronteira com o Brasil numa parceria com o governo colombiano com o seu do objetivo de combater o narcotráfico. Por falar em narcotráfico, aqui é rota de distribuição, pois essa mãe chamada Brasil mantém suas fronteiras abertas e aqui tem estrada para as Guianas e Venezuela. Nenhuma bagagem de estrangeiro é fiscalizada, principalmente se for americano, europeu ou japonês, (isso pode causar um incidente diplomático). Dizem que tem muito colombiano traficante virando venezuelano, pois na Venezuela é muito fácil comprar a cidadania venezuelana por cerca de 200 dólares.Pergunto inocentemente às pessoas: porque os americanos querem tanto proteger os índios? A resposta é absolutamente a mesma: porque as terras indígenas além das riquezas animal e vegetal, da abundância de água, são extremamente ricas em ouro -encontram-se pepitas que chegam a ser pesadas em quilos, diamante, outras pedras preciosas, minério e nas reservas norte de Roraima e Amazonas, ricas em PETRÓLEO.

Parece que as pessoas contam essas coisas como que num grito de socorro a alguém que é do sul, como se eu pudesse dizer isso ao presidente ou a alguma autoridade do sul que vá fazer alguma coisa.

É, pessoal... saio daqui com a quase certeza de que em breve o Brasil irá diminuir de tamanho. Será que podemos fazer alguma coisa???Acho que sim.

Repasse esse e-mail para que um maior número de brasileiros fique sabendo desses absurdos. Mara Silvia Alexandre Costa Depto de Biologia Cel. Mol. Bioag.Patog. FMRP - USP

Opinião pessoal: Gostaria que você que recebeu este e-mail, o repasse para o maior número possível de pessoas. Do meu ponto de vista seria interessante que o país inteiro ficasse sabendo desta situação através dos telejornais antes que isso venha a acontecer. Afinal foi num momento de fraqueza dos Estados Unidos que os europeus lançaram o Euro, assim poderá se aproveitar esta situação de fraqueza norte-americana (perdas na  guerra do Iraque) para revelar isto ao mundo a fim de antecipar a próxima guerra. Conto com sua participação, no envio deste e-mail. Celso Luiz Borges de Oliveira Doutorando em Água e Solo FEAGRI/UNICAMP.

Dr. Adgar Bittencourt, escritor e membro da ACO 

adgar.bittencourt@unoesc.edu.br


O xadrez político

e a tríplice aliança

 

Já se foi o tempo em que a eleição no estado era uma consulta bipolar. Dois partidos disputavam a hegemonia e a alternância ao palácio Cruz e Souza. A UDN e o PSD ditavam as regras e a batalha de bastidores dava-se pelo apoio da terceira força - o PTB – que, via de regra, oferecia o vice e decidia a eleição. Isso perdurou até os anos sessenta. Com o advento da ditadura, da posterior abertura política e redemocratização do país, vinte anos mais tarde, os partidos políticos fragmentaram-se em uma porção de outros. Alianças e coligações passaram a ser a regra nas composições para a busca do voto popular.

Luiz Henrique da Silveira elegeu-se com o maior pacote de apoios na última eleição. Constituiu uma polialiança liderada pelo PMDB e com promessas de garantir a sucessão, com os aliados e com a possível postulação do vice Leonel Pavan, do PSDB. Fenômenos ocorreram nos últimos quatro anos. Com a eleição de Raimundo Colombo do DEM ao senado com mais de 1 milhão e 700 mil votos a aliança ganhou um forte concorrente ao pleito. O vice-governador Eduardo Moreira que acompanhou o LHS no primeiro mandato passou a presidir o maior partido do Estado e por seis anos postulou-se candidato ao governo, na sucessão do Luiz Henrique. Em decorrência de sucesso eleitoral o novato Dário Berger, prefeito de Florianópolis, também do PMDB, achou-se no direito de aspirar a vaga, especialmente por ter aplicado uma surra de lei no maior adversário do PMDB, o ex-governador Esperidião Amin. O vice-governador Leonel Pavan acabou fora da disputa em função de seu envolvimento com o Ministério Público e Polícia Federal em episódio de corrupção passiva e tráfego de influência.

A briga atual põe em confronto o Eduardo Moreira e o Dário Berger que pretendem disputar a indicação do partido pelo voto dos filiados em 27 de março. Dessa escolha podem sair chamuscados rachando o PMDB. O governador não quer a consulta partidária. O vencedor pode querer disputar o governo em chapa pura e aí cai por terra em definitivo a Tríplice Aliança, garantia de muitos votos ao senado para o governador LHS. A coisa fede mais ainda quando se analisa o apoio antecipado de LHS ao presidenciável José Serra do PSDB, enquanto a nível nacional a cúpula do PMDB apóia a ministra Dilma Russef e o governo Lula. As pretensões de Berger incluem oferecer a possibilidade do PMDB catarinense apoiar a Dilma.

Os dias políticos estão correndo na velocidade dos ciclones extra-tropicais ou das águas de março. O complicador maior é que nas pesquisas oficiais e nas oficiosas quem aparece na ponteira é a deputada Ângela Amin; segue o Raimundo Colombo a boa distância e bem na rabeira ficam o Berger, o Eduardo e a Senadora Ideli Salvati. Daí se compreende a importância da inclusão do Dário Berger no pleito. Acostumado a surrar o casal Amin o prefeito da capital pode fazer a diferença na próxima eleição. Se a habilidade política do LHS for exitosa a Aliança permanece, com o Raimundo Colombo para governador, o Eduardo Moreira de vice; o Pavan fica fora do pleito, assume governo e termina o mandato atual. O Berger disputa a segunda vaga ao senado para estadualizar o nome e segurar o casal Amin. Todo o jogo de xadrez depende de um empate técnico nas prévias do dia 27 com o PMDB apontando o caminho da coligação. Lembrando sempre que “ a política é como as nuvens no céu: você olha e vê um cenário, no minuto seguinte olha de novo e o cenário já mudou”.

Dr. Adgar Bittencourt, escritor e membro da ACO 

adgar.bittencourt@unoesc.edu.br


Resgatando a história

 do Curso de Medicina

 

Atendendo ao convite do reitor participei da outorga do grau de médico aos bacharéis forjados no Curso de Medicina da Unoesc. Há algum tempo abandonei as cerimônias de formatura, também da minha área, porque não concordo com os festivais de ostentação e de gastança aliados ao mau gosto da algazarra, dos apitos e das cornetas estridentes das comemorações. Fui surpreendido por uma cerimônia de bom gosto, quase discreta onde predominaram falas inteligentes e equilibradas. A platéia comportou-se como poucas vezes pude ver nos últimos anos. Muitas figuras de fora, de longe. Teve de um tudo: de desembargador ao presidente do Conselho Federal de Medicina, Dr. Roberto d´Ávila, maior autoridade da medicina do país.

- Que teria acontecido?

O curso de medicina de Joaçaba foi um dos mais combatidos pela classe médica, local, estadual e federal. Por força do meu cargo, diretor da área das ciências biológicas e da saúde acompanhei o curso, do seu nascimento e em quase toda a sua trajetória. Depois de implantar a Odontologia, seus laboratórios, seu projeto pedagógico vencedor, sua área física, cutuquei o reitor a abraçamos juntos a idéia de implantar na UNOESC o curso de medicina. Fomos falando internamente e em voz baixa para não provocar risadas de escárnio.

- Medicina em Joaçaba? Vocês estão loucos!

Um dia descendo de elevador encontrei o Dr. Sérgio De Pauli, então meu vizinho de sala no Emacenter. Ele me perguntou como ia a “Odonto” e chutei-lhe a canela:

- “ Cara”, vocês são uns frouxos! Até quando vocês vão esperar para implantar na UNOESC o Curso de Medicina? – ele baixou a cabeça e não me respondeu!

Poucos dias depois veio o pedido ao reitor de um grupo de médicos e entre eles do Dr. De Pauli. Nascia a comissão. Lembro-me, claramente, do Walter, do Ricardo e do Roberto Marques, do Ramiro, do Descka, do Miguelito, do Tanaka, do Evaldo e mais alguns. Devo ter esquecido alguém. Compareci às primeiras reuniões que pouco acrescentaram. O pessoal não respeitava horário, mais tempo ficavam a atender os celulares. Não se conseguia pensar. Um dia, já de saco cheio, fui ao reitor:

- Não dá para trabalhar com esses “caras”! Eles não sentam! Não socializam. Não refletem!

Convocamos o José Mauro, grande e calejado pedagogo que andava meio solto na instituição para dar um norte ao projeto pedagógico. Na reunião seguinte, já com o Zé Mauro compareceu o Dr. Miguel, decano da arte médica e respeitado por todos. O projeto começou a sair do papel. Nesse meio tempo muitos malhavam a idéia. As instituições de classe ( Sindicato médico, Regional de ACM, o Cremesc) baixaram o pau no futuro curso. Muitos médicos gozavam a gente! A maioria ficou cética. O curso desceu aos infernos. Houve denúncias e processos. Acredito, fielmente, que o Dr. Miguel ao apoiar a causa deu o pontapé que faltava para a idéia pegar fogo. Em comum acordo, adotamos a metodologia vencedora da Odontologia. Montamos um curso de especialização em docência para a saúde, evoluímos para o Mestrado em Saúde Coletiva e os primeiros candidatos a mestre foram aparecendo. Indicada para a coordenação a Professora Jussara Quadros aceitou o desafio. Era a médica com melhor graduação de todo o grupo.

A pedido do reitor fui à Itajaí e encostei o Professor Bruno Schlemper na parede: ou vai nos ajudar a fazer um bom curso de medicina no interior ou vai acontecer do mesmo jeito. O Professor Bruno aceitou e fez a diferença. Virou nome de centro acadêmico e chorou na formatura. O curso saiu. Alguns adversários viraram aliados. O curso ganhou diferenciais nos laboratórios de morfologia; eu mesmo me transformei em cata-cadáver. Construímos um laboratório de simulação com todos os recursos para um bom ensino de procedimentos médicos. Fizemos um dos melhores laboratórios de técnicas operatórias do sul do país. A Unoesc ganhou o Hospital Santa Terezinha da comunidade. O Reitor comprou o Hospital do Dr. Dantas na Ilha e lá instalamos o AMU ( Ambulatório Médico Universitário) , também modelo de instalação de ensino. Mesmo sem muito entusiasmo de alguns, o Hospital Universitário está servindo ao curso de medicina e aos demais cursos da saúde. Logo mais, vamos ter um grande hospital universitário!

Todas essas imagens e muitas outras foram passando como filme pela minha memória enquanto assistia ao juramento de Hipócrates, no original, dos dezessete novos médicos que fizemos em seis anos. “

Eu juro, por Apolo, médico, por Esculápio, Higéia e Panacéia, e tomo por testemunhas todos os deuses e todas as deusas, cumprir, segundo meu poder e minha razão, a promessa que se segue: estimar, tanto quanto a meus pais, aquele que me ensinou esta arte; fazer vida comum e, se necessário for, com ele partilhar meus bens; ter seus filhos por meus próprios irmãos; ensinar-lhes esta arte, se eles tiverem necessidade de aprendê-la, sem remuneração e nem compromisso escrito; fazer participar dos preceitos, das lições e de todo o resto do ensino, meus filhos, os de meu mestre e os discípulos inscritos segundo os regulamentos da profissão, porém, só a estes. Aplicarei os regimes para o bem do doente segundo o meu poder e entendimento, nunca para causar dano ou mal a alguém. A ninguém darei por comprazer, nem remédio mortal nem um conselho que induza a perda.

Do mesmo modo não darei a nenhuma mulher uma substância abortiva. Conservarei imaculada minha vida e minha arte. Não praticarei a talha, mesmo sobre um calculoso confirmado; deixarei essa operação aos práticos que disso cuidam. Em toda a casa, aí entrarei para o bem dos doentes, mantendo-me longe de todo o dano voluntário e de toda a sedução sobretudo longe dos prazeres do amor, com as mulheres ou com os homens livres ou escravizados. Àquilo que no exercício ou fora do exercício da profissão e no convívio da sociedade, eu tiver visto ou ouvido, que não seja preciso divulgar, eu conservarei inteiramente secreto. Se eu cumprir este juramento com fidelidade, que me seja dado gozar felizmente da vida e da minha profissão, honrado para sempre entre os homens; se eu dele me afastar ou infringir, o contrário aconteça.

A minha maior surpresa nos atos de formatura foi ouvir o Dr. Bonamigo, um dos maiores adversários do curso transformado em paraninfo da turma, amado pelos novos médicos e aplaudido de pé pelo seu discurso-aula de ética médica, de elevada erudição. A segunda maior surpresa agradável foi ouvir o Dr. Roberto d´Ávila afirmar com toda a humildade, “nós autoridades médicas estávamos errados”; vocês fizeram aqui um grande curso de medicina.

- O que teria acontecido?

Conclusão: não é fácil derrubar uma idéia quando ela sai do coração e quando se tem certeza de onde se quer chegar. Parabéns “moçada”! Leiam, de vez em quando, o Juramento.

Dr. Adgar Bittencourt, escritor e membro da ACO 

adgar.bittencourt@unoesc.edu.br


Um caso

médico de Natal

 

Tenho o hábito de fazer uma visita de rotina ao HUST nos domingos pela manhã. Ando pelos corredores; cumprimento os abnegados colaboradores que deixam a família para cuidar das pessoas. Sou solidário com eles. Invariavelmente passo pela emergência que, invariavelmente, encontra-se lotada. Cruzo com enfermeiras, médicos, funcionários de apoio e aproveito para rever conhecidos que estão se servindo do nosocômio.

Um dia desses, na minha peregrinação domingueira dei com um velho amigo, dentista prático, que há 44 anos me acolheu em seu consultório onde atendi o primeiro paciente, dois dias após a formatura. Lá estava sentado o vivente, com seu sorriso de sempre, na ocasião a meio pau. Tinha uma cara de quem comeu e não gostou; a cor não era mais a de bebedor de vinho; estava acinzentado. Ao seu lado, a companheira de mais de 50 anos, aflita e inquieta. Ao me verem demonstraram alívio como se tudo fosse se resolver ràpidamente:

- O “véio” está passando mal! - enfatizou a esposa aflita. Foi na gruta de carro e quase desmaiou.

- Estou bem tonto! – acrescentou o doente. Nunca tive isso! Acho que é a minha pressão que baixou de repente. O meu coração está disparando. Parece um burro xucro.

Procurei acalmar os viventes. A médica de plantão já havia avaliado o meu doente e dois acadêmicos de medicina acompanhavam os seus sinais vitais.

- Já pedi o especialista de sobreaviso! – disse a jovem doutora de plantão. Acho que ele está evoluindo para uma intercorrência circulatória.

Fui à recepção da emergência e apressei o atendente que buscava um cardiologista. Lembrei-me do meu vizinho, colega de infância dos meus filhos.

Pedi para ligar para ele. Eu mesmo assumi o ônus de perturbar o seu descanso de domingo.

- “Cara” é muito grave? Acabo de chegar da uma caminhada estou pingando; será que dá tempo de tomar um banho?- disse o doutor ofegante, porém, calmo.

- Fique frio! – respondi. O “véio” está sentado e assistido pela família, pelos doutorandos e pelo plantão! Tome teu banho que eu fico à espera.

Menos de quinze minutos depois chega o médico, bonito, cheiroso, sorriso de menino. O “veio” olhou para mim desconfiado. Nessa altura o paciente já aguardava no consultório, rodeado de familiares, pelos acadêmicos e por mim. É preciso dizer que apresentava uma cara melhor, estava confortável e “papeava” coisas dos nossos velhos tempo. Retirei a turma de parentes e o “véio” ficou entregue ao especialista. Dei adeus aos familiares do amigo. Manifestei-lhes a certeza da minha confiança no médico e fui para o domingo com a família.

No final da tarde, fazendo a caminhada de rotina encontrei o doutor e perguntei pelo meu amigo.

- Fez um AVC isquêmico ( derrame) na minha frente, logo que você saiu! Está na UTI.

Quinze dias se passaram. Outro domingo. Hoje. Oito horas da manhã. Um telefonema tira-me dos braços da amada. É o “véio” com sua voz de saúde:

- Desculpe te tirar da cama! Eu e a mulher queremos te agradecer! Aquele médico se parece com o Menino Jesus, você não acha? - riu com disposição.

- Sem vocês a gente não ia ter mais Natal! – gritou a mulher por trás do telefone. Deus mandou o Menino Jesus médico para salvar o “véio”!

Dr. Adgar Bittencourt, escritor e membro da ACO 

adgar.bittencourt@unoesc.edu.br


Raimundo, o Colombo

 

Acabo de ler o livro “ Povo, tem rosto, nome e endereço” do senador Raimundo Colombo. Li de uma sentada o pequeno volume que recebi na fila de autógrafos, dias atrás. O senador fazia uma visita aos correligionários do meio oeste; fui lhe entregar um projeto do Hospital Universitário Santa Terezinha e um pedido para transformar a necessidade em uma emenda parlamentar, única via no momento para se tentar verbas federais para a saúde.

Não conhecia o Raimundo. Sabia dele pela imprensa e pelas suas ações nos últimos anos, em mandatos políticos e empresas ligadas à Aliança que apóia o governador Luiz Henrique. Agrada-me conhecer as pessoas pelas coisas que escrevem. Os “escrevinhadores”, dificilmente, conseguem dissimular seu caráter quando se expõem por escrito. Fui entrando na vida pública e privada do senador, por entre as páginas singelas, escritas sem nenhuma pretensão literária, mas de conteúdo simples e humano.

O Raimundo vai contando as estórias dos seus tempos de lageano, servente de armazém, líder de Grupo de Jovens, até entrar na política pelas mãos do Jorge Bornhausen, governador biônico do Estado de Santa Catarina. Talvez seja por isso que sempre mantive o Raimundo longe do meu interesse. A velha máxima ainda vale em muitos casos: “diga-me com quem andas e saberei quem és”. Nos meus já muitos anos de militância política, nunca consegui engolir o golpe de 64; para mim o Doutor Jorge carregará para sempre o estigma de político da ditadura.

No entanto, começo a perceber que, apesar do preconceito, não posso deixar de levar em consideração que Doutor Jorge derrubou a Ângela Amin e elegeu o Paulo Afonso; teve especial desempenho na eleição do Luiz Henrique dando um tombo no próprio Esperidião. Daí tenho que admitir que o Raimundo, aos 23 anos, cruzou com o maior mago da política de bastidores que o estado já viu. Aprendeu a lição e pelas mãos do Doutor Jorge acabou secretário, deputado estadual, federal, três vezes prefeito de Lages e senador com a maior votação de todos os tempos da política catarinense. Coisa de milhão e oitocentos mil votos.

Com toda essa bagagem o senador, cumpridos os primeiros lustros de seu mandato já contabiliza resultados importantes na esfera federal. As suas idéias contadas em livro, em pequenas narrativas da trajetória de sua vida fazem a gente acreditar que ele está pronto para ser a grande figura política catarinense da nova geração.

Raimundo Colombo chega à raia da disputa de 2010 como um político sério, humilde, inteligente, astuto, articulado e vencedor. Aproveita um momento histórico de raras coincidências. O Doutor Jorge poderá figurar na equipe de primeiros conselheiros de José Serra, o candidato de maior cacife a Presidente da República. O outro aliado, Doutor Luiz Henrique, governador da descentralização, quer ir para o Senado com dois milhões de votos; apóia Serra e desejaria levar consigo o Cacildo Maldaner, atual suplente de Raimundo. Para o Raimundo restará a hercúlea tarefa de construir a Tríplice Aliança, no primeiro ou no segundo turno, mesmo botando “ovo em pé” como o outro Colombo.

Dr. Adgar Bittencourt, escritor e membro da ACO 

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